by Peter Naumann » Thu Aug 18, 2005 6:52 am
Prezada Liz,
Acabo de ler a sua contribuição no Fórum de Babels e quero responder imediatamente. Peço desculpas por fazê-lo em português. Os meus idiomas "A" são alemão (língua materna) e português, meu castelhano já foi "B" e hoje é "C" e eu sou exigente em matéria de domínio dos idiomas de trabalho. Não quero escrever em uma língua que domino mal, como fazem tantas pessoas em BABELS. Assim espero que essa carta seja compreendida.
A sua carta me enseja alguns breves comentários, que talvez esclareçam melhor a situação e as nossas posições:
(1) Você se queixa do sarcasmo dos meus argumentos. Ocorre - na minha visão e na de outras pessoas, técnica e profissionalmente qualificadas para efetuarem uma avaliação - que Babels literalmente provoca o sarcasmo. Se eu tivesse talento literário, não teria escrito um artigo sobre BABELS, mas uma sátira, por exemplo na tradição de Jonathan Swift ("A Modest Proposal"). O sarcasmo é uma forma mais radical da ironia, que consiste em citar os argumentos do oponente - precisamente para mostrar que eles são inconsistentes. Tem boa tradição (Swift, Montesquieu, Gibbon, Heine, Marx, Karl Kraus e outros). O que Babels tem contra o sarcasmo? E por que o sarcasmo seria um obstáculo para reconhecer que o meu artigo é um artigo elaborado a partir de ARGUMENTOS? O argumento central é muito simples: como intérprete de conferências com mais de um quarto de século de experiência nessa profissão eu simplesmente não acredito que o exigente trabalho da interpretação no Fórum Social Mundial, lá onde o Fórum continua com o caráter de conferência internacional, possa ser feito satisfatoriamente por amadores. Uma rede de voluntários deveria ser composta por profissionais, e pelos melhores. Não é fácil, mas também não é impossível mobilizar profissionais, mas eles organizam seu trabalho segundo outras formas, mais eficientes, do que BABELS.
(2) Fui repetidas vezes acusado de insultar os membros de BABELS. Essa reação me parece ser completamente irracional. Fui irônico, fui também sarcástico, mas ao fazer isso sempre me referi ao estilo e aos argumentos de BABELS e aos desastres causados pelos amadores, que pude observar em Porto Alegre. De certa forma, repeti o que BABELS disse e fez, mas no espelho da ironia e do sarcasmo. Falar aqui em insulto e difamação é não saber o que significam insulto e difamação e como eles se distinguem da ironia. Argumentar ironicamente é levar o oponente a sério, levar as suas palavras e ações a sério. Essa forma de discussão é até civilizada e polida. É mais polida do que algumas reações de babelitos a mim. Que culpa tenho eu se BABELS argumenta mal, escreve mal, discute mal, organiza mal e sobretudo tem noções equivocadas acerca do que é interpretação e de como se deve organizar a interpretação para que ela funcione efetivamente?
(3) Alberto, María e provavelmente outros ficaram chocados com a minha resposta a Julie Boéri. Mas eles deveriam ler mais uma vez a carta de Julie Boéri de 12 de junho e a segunda, de 3 de julho. No Brasil dizemos (é um velho provérbio português): "Quem diz o que quer, ouve o que não quer". Julie Boéri apresentou-me como pessoa arrogante, elitista, corporativista, cheia de "mépris", um habitante da "tour de marbre" etc. - quando, como profissional que ela é ou pretende ser, poderia ter dito simplesmente que sou intransigente quanto aos padrões de qualidade técnica da interpretação. Alberto me informa ontem que Julie Boéri está escrevendo uma tese de doutorado sobre interpretação. Tanto mais me espanta a aparente incapacidade (ou falta de vontade) de considerar os argumentos por mim expostos. Entre profissionais, esses argumentos deveriam ser reconhecidos imediatamente. Se você ler mais uma vez a minha resposta a Julie Boéri, que é também uma resposta a muitos outros babelitos, verá que ela é argumentativa, apesar da ocasional dureza e do sarcasmo que considero perfeitamente pertinentes.
(4) Considere seriamente que trato Babels, Julie Boéri, você, Alberto e tantos outros com respeito, simplesmente porque ARGUMENTO com vocês.
(5) Repetidas vezes tenho sido convidado a entrar em Babels e participar da rede. Embora tenha o trabalho voluntário em alta conta (trabalhei muitíssimo como voluntário em mais de 26 anos de carreira e continuarei fazendo isso), não vejo sentido por causa da organização deficiente de Babels, que foi bem descrita pela minha colega sevilhana Charo Baquero no Fórum da AIIC em 14 de junho: "El eco que me llegó a través de la prensa era de triunfalismo cuando el testimonio de los colegas que habían vivido el Foro en vivo y en directo, incluso los más optimistas, era de frustración cuando no de franco enfado por la desorganización reinante. No me pareció razonable dirigirme a Babels con una propuesta en franca contradicción con su filosofía de lo que es interpretar, aunque de forma voluntaria."
(6) A comunidade de intérpretes - falo dos profissionalmente qualificados - tem experiência em organização. Babels não pode contrapor nada de comparável. Mobilizar essa experiência disponível e colocá-la à disposição do Fórum Social Mundial e dos foros regionais asseguraria um trabalho qualificado.
(7) Babels teria de mudar inteiramente a sua estrutura, se quisesse ter condições de fazer um trabalho de qualidade. Como isso me parece duvidoso, não posso engajar-me a não ser com contribuições críticas, feitas na melhor ciência e consciência. Podem ser duras, podem ser desagradáveis, podem ser contrárias às ilusões que Babels e os babelitos alimentam, mas são apresentadas de boa-fé. Não fosse assim, eu nem estaria escrevendo aqui.
(8) Tenho a impressão de que Babels precisa desenvolver mais o senso de humor e suportar com espírito esportivo as polêmicas às quais dá origem. Quando recebi a carta de Julie Boéri (de 12 de junho), não reagi como "vítima". Admito até que numa polêmica os contendores às vezes passem do limite e abandonem o compromisso de argumentar. Li a carta de Julie Boéri com a atenção e o cuidado que ela merecia e escrevi o que julguei necessário dizer. Há polêmica, isso sim, mas não há nenhuma 'demonização' nisso.
(9) Para finalizar, quero dizer que a responsabilidade pelo conteúdo e pelo estilo das minhas contribuições é inteiramente minha. Escrevi em alemão, mas considero a versão inglesa do meu artigo em algumas partes superior à minha própria versão.
Cordialmente,
Peter Naumann